16.10.2026
Diálogos sobre Memória, Curadoria e Resistência Marcam o 3.º Dia do Workshop “Uma Ponte Feita de Arte”


Maputo, 23 de Abril de 2026
O painel «Diálogo entre Curadores e Agentes Culturais», inserido na primeira sessão do workshop Uma Ponte Feita de Arte, promoveu uma reflexão crítica sobre a preservação da memória histórica, a salvaguarda do património comunitário e a prática curatorial contemporânea em Moçambique. O encontro reuniu Ivan Laranjeira, director do Museu Mafalala, Rafael Mouzinho, gestor da Galeria de Arte da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), e o fotógrafo e investigador Amilton Neves Cuna.
Arte, Património Comunitário e Autodeterminação Arquivística
A primeira intervenção coube a Ivan Laranjeira, que expôs a trajectória da Associação Iverca, fundada em 2009 por um movimento de estudantes universitários. Segundo o gestor, a iniciativa nasceu com a missão de impulsionar o turismo comunitário e alterar a narrativa mediática sobre o bairro da Mafalala (associada por anos à criminalidade), para dar visibilidade à riqueza cultural e ao potencial artístico do bairro.
Laranjeira apontou igualmente as limitações dos enquadramentos legais em Moçambique em relação à salvaguarda patrimonial. Na sua análise, a legislação estatal foca-se em monumentos históricos tradicionais do passado e deixa desprotegida a especificidade da Mafalala, um espaço de memória viva composto por mais de 6 500 edifícios de madeira e zinco.
Sem um estatuto de protecção estatal ajustado à realidade do bairro, a Associação Iverca e o Museu Mafalala avançaram para a consolidação de um acervo próprio. O projecto pretende documentar a diversidade étnica, as migrações e a produção artística local, de modo a assegurar a preservação da memória da comunidade. O director destacou ainda a componente de artivismo, que envolve líderes e agentes locais no debate sobre as relações entre o espaço urbano e a criação contemporânea.
A Práxis Curatorial e as Metáforas da Modernidade
Em seguida, o curador Rafael Mouzinho analisou a evolução da curadoria e das artes visuais em Moçambique e no continente africano. A partir de quatro metáforas conceptuais do ensaísta Francisco Noa, Mouzinho debateu os limites e os caminhos da criação cultural face às tensões entre tradição e modernidade, aos avanços tecnológicos e ao posicionamento cosmopolita no meio da transformação social.
O docente recordou marcos centrais na teorização do sector, como o surgimento do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique (Muvart) em 2003, as contribuições historiográficas de Alda Costa, o trabalho pedagógico de Bisi Silva no projecto ASIKÒ, bem como iniciativas expositivas e editoriais que ligam a criação local aos debates internacionais.
Fotografia e a Ressignificação da Memória Colonial
A fechar o painel, Amilton Neves Cuna apresentou o projecto Madrinhas de Guerra, focado no papel das mulheres moçambicanas no Movimento Nacional de Femininas entre 1961 e 1974.
Criada sob a alçada do governo colonial português no período da Guerra de Libertação Nacional, a organização encarregava estas mulheres de prestar apoio moral aos soldados através de cartas. A troca de correspondência resultou em laços afectivos profundos e, em vários casos, em promessas de casamento e ascensão social.
Com o fim do conflito e a Independência Nacional, a estrutura extinguiu-se e muitas destas mulheres caíram no esquecimento. Através de retratos recolhidos em casas da cidade de Maputo, o trabalho de Amilton Neves expõe o contraste entre o prestígio da época colonial e o posterior abandono, para propor um olhar crítico sobre as omissões e ambiguidades da memória colectiva.








