Art. 2 – Workshop 1

14.10.2026

Curadoria e Fotografia em Debate no Segundo Dia da Ponte Feita de Arte

O segundo dia do workshop do projeto «Uma Ponte Feita de Arte», realizado a 22 de abril, reuniu os participantes em torno de dois eixos centrais da criação e preservação cultural: a prática da curadoria e a linguagem fotográfica. A jornada contou com uma sessão de reflexão sobre os processos curatoriais, orientada pela directora da Fundação DARC, Giuliana Benassi, seguida por um momento focado na fotografia de arte, dinamizado pelo fotojornalista Marco Giugliarelli.

O lugar torna a mensagem da obra ideal

Como é que uma obra de arte sobrevive ao tempo quando a sua existência depende de um lugar específico?
Giuliana Benassi começou a sua intervenção com o conceito de site-specific, a arte concebida para um espaço determinado, onde a obra e o local estabelecem uma ligação indissociável. A arte site-specific exige a presença física e corporal do espectador para completar o seu sentido. Exemplo marcante desta relação tencionada entre o espaço público e o público foi a escultura Tilted Arc, de Richard Serra, instalada em 1981 na Federal Plaza, em Nova Iorque.
Vista por muitos cidadãos como uma barreira opressiva, a obra gerou polémica e acabou removida em 1989. O próprio artista defendeu, na época, que mover a escultura significava destruí-la, pois a sua escala e posição dependiam da topografia daquela praça.
Benassi abordou também obras de outros criadores como Maurizio Cattelan, Anselm Kiefer, Olafur Eliasson e John Ahearn, este último conhecido por criar esculturas directas com a comunidade. Nestes trabalhos, a relação deixa de ser apenas com a arquitectura e passa a ser com o próprio tecido humano.

A Fotografia como Tradução e Guardiã

Como é que o olhar de um fotógrafo traduz a intenção de um curador sem trair a essência da criação?
Se a exposição é um acontecimento efémero que desaparece após a desmontagem, o trabalho do fotógrafo ganha o estatuto de testemunho e arquivo. Foi a partir desta premissa que Marco Giugliarelli conduziu a sua reflexão sobre a fotografia. Para Giugliarelli, a fotografia de arte vai além da cópia mecânica: trata-se de uma interpretação rigorosa e de uma tradução visual do pensamento curatorial. Capturar uma exposição implica entender o diálogo entre as peças e a arquitectura, valorizar as linhas de fuga e, inclusive, dar importância ao vazio como elemento narrativo.
O fotógrafo detalhou aspectos técnicos fundamentais para alcançar a máxima fidelidade na reprodução visual:
• Rigor Geométrico e Posição: A câmara deve ficar numa posição central e perpendicular em relação ao objecto para evitar distorções de perspectiva e manter as proporções exactas da obra.
• Controlo de Iluminação: O uso de fontes de luz com alto índice de reprodução cromática (CRI superior a 95), dispostas a ângulos de 45 graus, evita reflexos e variações indesejadas de cor.
• Gestão da Cor: O fluxo de trabalho exige o formato RAW e cartões de calibração (ColorChecker e cinzento neutro) para garantir a correspondência precisa dos pigmentos.
Além da documentação técnica das obras e das chamadas installation views, a sessão ressaltou a relevância da presença humana na sala de exposição. A inclusão do público dá escala e vida às obras, captando olhares e gestos de reflexão, sem esquecer os aspectos éticos de privacidade.
A jornada culminou com o registo do próprio atelier do artista — um mergulho intímo no caos criativo, onde ferramentas gastas pelo uso quotidiano e materiais residuais contam a história que precede a obra final.
No fecho do encontro, ficou a certeza de que a fotografia não serve apenas para guardar o passado, mas para construir a história da arte e permitir que a experiência de uma mostra continue viva no tempo e no espaço.

Visita guiada a Fortaleza de Maputo

Após este momento de aprendizagem, os participantes e facilitadores foram realizaram uma visita a exposição resultante da 5.ª edição da Residência UPCycle, uma iniciativa organizada pelo Museu do Cinema, na Fortaleza de Maputo.

Durante a visita, os participantes puderam apreciar as obras de Mário Cumbana, que reuniu três momentos históricos [Massacre de Mueda (1960), o 7 de Setembro de 1974 (Dia da Vitória) e as manifestações de 2024]; de Thandi Pinto que humanizou as imagens etnográficas de um arquivo especulativo de Moçambique; a criação de uma instalação sobre edifícios abandonados em Maputo de Delfio Muholove, centrado na questão “Que País estamos a construir?”; a mostra representativa do mal e o sal como elementos centrais, de Gilda Barros, baseado em arquivos da Cinemateca Português sobre a vida quotidiana em Cabo Verde; e por fim, Maresa Nzinga, que focou-se na vida e história das trabalhadoras moçambicanas contratadas pela antiga República Democrática Alemã, popularmente conhecidas como “Madgermanes”.