Un ponte fatto ad arte, Maputo

12.10.2026

Uma Ponte Feita de Arte promove reflexão sobre a contemporaneidade artística em Moçambique

Cooperação entre Moçambique e Itália reúne artistas num espaço de reflexão, criação e intercâmbio cultural, com foco no valor da ideia, da autenticidade e da identidade artística.
O primeiro dia do workshop “Uma Ponte Feita de Arte”, iniciativa de cooperação artística entre Moçambique e Itália, foi marcado por uma reflexão sobre o papel da arte na contemporaneidade e os desafios enfrentados pelos artistas na construção de uma identidade própria e reconhecível no mercado artístico internacional.
Durante a primeira sessão, orientada pelo Director-Geral da Criatividade Contemporânea, Costantino D’Orazio, os participantes foram convidados a reflectir sobre o valor de uma obra de arte para além da técnica ou habilidade do seu autor. Segundo D’Orazio, o valor artístico de um artista não reside apenas na sua capacidade técnica, mas sobretudo na ideia que sustenta e dá sentido à obra. “O valor artístico de um artista não está só na sua habilidade, mas sim na sua ideia que apresenta por detrás da obra de arte”, destacou.
Para o artista e formador, a repetição excessiva pode comprometer a autenticidade do trabalho artístico. A insistência numa mesma fórmula criativa pode limitar a identidade do artista e contribuir para a sua perda de relevância no mercado internacional.
Outro aspecto abordado foi a relação entre o artista, a obra e o espectador. D’Orazio diz: “Não tenta explicar tudo sobre a arte”. Com esta ideia, tenta explicar que o criador não deve procurar explicar completamente aquilo que apresenta, mas permitir que o público tenha espaço para interpretar e explorar a obra a partir da sua própria subjectividade, e assim, criar o seu próprio espaço interpretativo e reflexivo.
A sessão recorreu ainda a referências de diferentes artistas e obras da história da arte contemporânea, entre eles Lucio Fontana, Joseph Kosuth, Sol LeWitt, Andy Warhol, Robert Rauschenberg e Alberto Burri. Os participantes puderam observar diferentes formas de abordagem artística e compreender como a ideia, o conceito, o acaso e a experimentação podem participar na construção de uma obra.
Costantino D’Orazio chamou igualmente atenção para o papel do acaso no processo criativo, considerando que aquilo que inicialmente pode parecer imprevisto ou não planeado pode tornar-se parte fundamental da própria obra. A reflexão estendeu-se ainda ao processo de construção da identidade artística, perder também faz parte do percurso de construção de um artista, uma vez que experimentar, abandonar caminhos e procurar novas possibilidades pode ser necessário para evitar que o criador fique preso a uma única fórmula.

Do debate à experiência prática

No período da tarde, os facilitadores e participantes do projecto realizaram uma visita ao Núcleo de Arte, onde foram recebidos pelo artista Celestino Mudaulane, para um momento de conversa em torno arte contemporânea em Moçambique.
Mudaulane começou por conta a história do surgimento da Associação Cultural Núcleo de Arte, fundada em 1921, por artistas e intelectuais. Esta casa foi criada com o objectivo de promover e estimular o gosto pelas artes plásticas, e que por ter sido o primeiro espaço de artes a desenvolver várias actividades artísticas simultaneamente, antes da independência em Moçambique, é considerada a Embaixada das Artes. Dentre as artes desenvolvidas estão a pintura, a escultura, a cerâmica, a fotografia e a dança.
O Núcleo de Arte foi e continua a ser uma referência na cena artística. Segundo Mudaulane, continua a haver vantagens quando um artista se associa ao Núcleo, por este estar “ligado a toda estrutura cultural de Moçambique (…) funciona que nem o elo de ligação entre a direcção central e as casas de cultural”. E para além disso, consegue reunir os artistas moçambicanos num mesmo espaço. Oferece também diferentes produtos ligados as artes performativas, artes visuais, eventos, galeria de artes, workshops, aulas de pintura e trabalho comunitário.
Indo para o tema central da visita, que é a arte contemporânea, Costantino D’Orazio fez uma análise e comparação ao cenário artístico moçambicano do passado e presente. Ao fim da sua observação, concluiu que “os artistas contemporâneos moçambicanos são muito ligados a figura, não vão além da figura reconhecível; e se fazem alguma pintura abstracta, sempre recorrem a uma paleta de cores prazerosas aos olhos”. De certa forma, D’Orazio acredita que este tipo de arte continua predominante devido a demanda do mercado de artes em Moçambique; e que os novos artistas replicam o que a geração passada já fez por ser seguro e cómodo. Para entender melhor este cenário, questiona ao Celestino Mudaulane o que ele acha disso.
Mudaulane opta por fazer uma viagem ao passado e uma referencia ao facto dos artistas moçambicanos pertencerem ao povo Banthu. Enquanto africanos, segundo ele “somos muitos coloridos”. Esta paixão pelas cores vivas é antiga, tanto que se pode encontrar em pinturas rupestres. Mudaulane diz que “vivemos cores (…) somos influenciados há milhares de anos pelo uso da coloração” por se tratar de uma característica Banthu; “cor é alegria para nós”, afirma. Grande parte da influência dos artistas plásticos moçambicanos parte das cores.
Pensando do ponto de vista mercadológico, Celestino Mudaulane começa por afirmar: “nós pintamos com uma base cultural”, isto é, “a influência do comprador não é grande” para mudar como cada pintor concebe a sua arte. Até certo ponto, há uma certa resistência à pressão feita pelo comprador devido ao valor histórico e cultural da pintura feita em África. De acordo com Mudaulane, um dos artistas da velha guarda que seguiu uma linha diferente foi Jacob Macamboco, que era “paisagista”. A geração seguinte, composta por Malangatana, Samate Mulungo, Noel Langa, optou por preservar a linha colorida e figurativa.
Após este momento de debate e partilha de conhecimento, alguns participantes do projecto visitaram o Ateliê da artista plástica Nelly Guambe, onde puderam entrar em contacto com pinturas abstractas, cores e representações de carácter humano. Nelly procura estabelecer diferentes possibilidades de leituras por meio do trabalho que desenvolve, com recurso a elementos visuais e mensagens que podem ser interpretadas de forma subjectiva pelo espectador.
Para uma experiência imersiva, a artista preparou uma actividade prática de desenho à mão livre, em que os participantes teriam a oportunidade de se expressar e deixar uma marca individual no ateliê e no processo de intercâmbio artístico.
A iniciativa Uma Ponte Feita de Arte é de facto uma plataforma de intercâmbio entre Itália e Moçambique, pois visa aproximar artistas, criar um espaço seguro para a partilha de conhecimento e de expressão artística. Embora se procure por novas formas de arte, ainda se é necessário preservar a autenticidade, a identidade, a experimentação, a subjectividade e o papel da ideia na criação artística. Portanto, a arte é um espaço de diálogo e construção de pontes entre diferentes contextos culturais.